quinta-feira, 11 de março de 2010

Violador de Telheiras...

  É isto uma vida dupla. Um homem de 30 anos, discreto, que estudou Engenharia no Instituto Superior Técnico. Que tem um trabalho estável e é bem visto pelos colegas. Um homem com uma namorada e um T3 num prédio recente em Massamá, Queluz. Um homem que vai ao ginásio às terças-feiras, que passeia a cadela depois do jantar. O mesmo homem que persegue adolescentes na rua, que as ataca com uma faca ou uma chave de parafusos, que exige sexo oral, masturba-se, larga-as, volta para casa... Até que um dia é apanhado e acaba por confessar que violou 40 raparigas. A confirmar-se tudo isto, foi esta, durante pelo menos dois anos, a vida dupla do alegado "violador de Telheiras".

  "Só pode ser um louco" - é a frase sobre este caso que por estes dias se ouve mais no bairro lisboeta onde supostamente actuava o engenheiro que trabalhava na ZON TVCabo. Estudava formas de melhorar os serviços que a empresa presta aos clientes, era essa a sua função. Desde sexta-feira está preso preventivamente.
  "Não deve bater bem da cabeça", é também o desabafo agastado de uma das funcionárias do ginásio que ele frequentava em Telheiras, uma das poucas que se lembram dele. E é também qualquer coisa parecida com isso que diz a senhora da padaria, o carteiro e Joana, 18 anos, cara de menina. Mas será mesmo assim? "Até me custa olhar para ele. É tão... tão parecido com tantas pessoas que conhecemos", diz a rapariga sentada numa das esplanadas que o engenheiro costumava frequentar. E olha indignada para uma folha de jornal sobre a mesa, no qual aparece impressa a fotografia do suposto criminoso.
  "Este homem tem uma imagem securizante, é o tipo de pessoa com quem se entra num elevador, com quem qualquer um de nós beberia um café", diz ao P2 Carlos Poiares, psicólogo criminal. A maneira como confiamos nas pessoas em função da sua imagem exterior, acrescenta, devia fazer-nos pensar. Este homem, aparentemente, era uma pessoa perfeitamente "normal".
  "Costumava usar uma t-shirt branca, calças escuras, sentava-se na esplanada sozinho", conta a funcionária de um dos cafés da "rua das esplanadas" de Telheiras. Provavelmente olharia para as raparigas que iam chegando das escolas da zona - num raio de poucos metros há dois estabelecimentos de ensino. Eventualmente escolheria ali algumas das suas vítimas, quase sempre menores. Mas isso a funcionária não sabe. Na verdade, nunca prestou grande atenção ao homem de t-shirt branca até esta semana ver o rosto dele no jornal.
  "Os agressores sexuais têm características muito especiais", diz Cristina Soeiro, do Instituto Superior de Polícia Judiciária e Ciências Criminais. Sim, há-os integrados, sem cadastro, planeados, organizados. Fora de casa "usam o sexo como arma". Dentro de casa as companheiras podem passar anos sem se aperceberem de nada. Estudos feitos nos EUA mostram que, em média, os "violadores em série" fazem 11 vítimas até serem capturados.
  O alegado "violador de Telheiras" vivia com uma mulher há três anos. Nas redondezas da sua casa não há muitos vizinhos que se lembrem dele. "Parecia ser uma pessoa sossegada", diz um. "Não me lembro dele", dizem muitos outros. Quase invisível? E no entanto, às terças-feiras, saía do trabalho, em Lisboa, dirigia-se ao ginásio, em Telheiras, e depois esperava. Via as jovens encaminharem-se para um prédio. Entrava com elas, como se fosse apenas mais uma pessoa que para ali se deslocava, e depois ameaçava-as. Consumada mais uma violação, voltava a Massamá.
    Alto risco
  Mas a pergunta que faz Joana e a senhora do café e a funcionária da padaria de Telheiras é se alguém assim é doente mental. E se é, se está condenado a reincidir? As respostas não são fáceis. "Há muitos perfis de violadores", diz ao P2 Carlos Fernandes, director do mestrado de Psicologia Forense, da Universidade de Aveiro. Fernandes faz este tipo de avaliações, já foi chamado como consultor a tribunais - pronunciou-se, por exemplo, sobre a perícia psicológica feita àquele que ficou conhecido como o serial killer de Santa Comba Dão, um ex-militar da GNR, respeitado, insuspeito, que matou três jovens entre 2005 e 2006. "É frequente que haja uma psicopatologia [como a esquizofrenia, por exemplo]", mas não acontece sempre. "Essa avaliação tem que ser feita através de entrevistas muito cuidadas, onde se analisa a postura, o discurso, a mímica do indivíduo... Implica testes científicos internacionais, devidamente adaptados às características da população portuguesa."
  Há violadores com uma perturbação de personalidade, que nem sempre é fácil de identificar, que passam despercebidos na comunidade, continua Fernando Almeida, responsável pela unidade de Psiquiatria Forense no Hospital de Magalhães Lemos, no Porto. "Não são doentes mentais", diz Cristina Soeiro. É outra coisa. "São pessoas que não sentem culpa, que não conseguem estabelecer relações afectivas de uma maneira dita "normal". Cerca de 60 por cento das violações são cometidas por indivíduos com uma perturbação de personalidade."
  Também há violadores ocasionais, que actuam "num contexto de intoxicação". E os psicóticos, que agem quando estão descompensados - mas que, se forem tratados, terão muito menor probabilidade de reincidir. O que acontece, depois de detido um destes predadores, é definido em função da avaliação de tudo isto.
  Estes indivíduos podem precisar, enquanto cumprem pena, de uma terapia comportamental muito intensiva, "que os ajude a controlar os seus impulsos". Na prática, há poucos técnicos para a população prisional, reconhece Carlos Fernandes.
  Pode igualmente ser necessária medicação. E, cumprida a sentença (em Portugal, a pena por violação pode ir até aos dez anos), pode ser imprescindível um acompanhamento a sério. Mas Carlos Fernandes faz uma "avaliação muito má" do que se passa a esse nível. "Os reclusos saem da prisão, a família não adere a estes programas, é muito difícil segui-los. E, se houver uma psicopatologia, o risco de reincidência é muito grande."
  A Polícia Judiciária (PJ) não tem estudos que permitam apurar quais as taxas de reincidência nestes casos. Sabe-se que os violadores com perturbação de personalidade "têm um prognóstico muito reservado, ainda que submetidos a tratamento". E que é entre estes que o risco é mais alto.
  Talvez por isso, noutros países, histórias como as do violador de Telheiras fazem saltar para o debate público o tema "castração química". O que, na prática, implica a administração de fármacos, antagonistas da testosterona - uma hormona sexual masculina com efeitos sobre a actividade sexual. "Mas, para além dos problemas éticos, a questão levanta problemas técnicos. Não sabemos ainda quais as consequências a longo prazo destes medicamentos", diz Carlos Fernandes. Para além de que a toma da medicação depende dos próprios, o que é falível.
    Câmaras de vigilância
  É cedo ainda para saber qual o perfil do homem que durante meses causou sobressalto em Telheiras. Certo é que "não era uma pessoa muito previdente", nas palavras de um inspector da PJ. "Deixou impressões digitais e ADN em quase todas as situações investigadas", adianta, lembrando que, apesar da aparente falta de cuidado, andou dois anos a "furar a rede", que é como quem diz a escapar às diligências da polícia.
  Sem acesso aos dados pessoais do suspeito, uma vez que o mesmo nunca havia sido referenciado em qualquer situação criminal, os inspectores da PJ andavam desde 2008 atrás de alguém que "parecia saber para onde se deslocar". As vítimas eram sempre levadas para os pisos superiores de prédios que o próprio suspeito parecia conhecer na perfeição - ainda que Irene Luís, assessora de imprensa da ZON, garanta que ao serviço desta empresa ele nunca trabalhou directamente com os clientes.
  A PJ acabou por montar algumas câmaras de filmar em locais estratégicos. O trabalho de recolha de elementos arrastou-se ao longo de meses até que, depois de se terem "filtrado" centenas de pessoas, entre comerciantes, estudantes, trabalhadores locais, o número de suspeitos foi drasticamente reduzido.
  Nas imagens captadas havia uma que sobressaía. A de um homem, ainda novo, de cabelo rapado. A 25 de Fevereiro, a PJ difundiu um retrato-robô. Na sexta-feira, uma semana depois, foi anunciada a detenção do suspeito. No seu local de trabalho e, supostamente, depois de oferecer resistência.
  Os primeiros interrogatórios apontam-no como autor de oito violações, apesar de se suspeitar que terá cometido pelo menos mais duas. É sua, no entanto, a confissão de que, em dois anos, terá violado, sempre da mesma forma, cerca de 40 jovens.
  A PJ ainda aguarda que muitas raparigas venham a dar o seu contributo para ajudar a esclarecer o caso.
 - Publico OnLine -