segunda-feira, 8 de março de 2010

"«Afinal, o que é que as mulheres querem?»"

 
  Durante cerca de cinco anos de pesquisa sobre a sexualidade feminina e mais de mil entrevistas a mulheres de diferentes idades e orientações sexuais, Cindy Meston e David Buss tentaram chegar à resposta da eterna pergunta imortalizada por Sigmond Freud: "Afinal, o que é que as mulheres querem?". Entre relatos muito pouco românticos e números perurbantes sobre as motivações que levam as mulheres a partilhar o corpo com alguém, as conclusões dos investigadores da Universidade do Texas foram publicadas no livro "Porque é que as Mulheres têm Sexo? A Psicologia do Sexo Contada por Elas".
  Ao todo, são mais de 300 páginas com histórias íntimas contadas na primeira pessoa. Embora fascinantes na sua diversidade, revelam também um lado cru e sincero das mulheres onde a sexualidade é relatada sem pudores. Por exemplo, há quem confesse: "Seduzi um homem e trai o meu namorado só para provar a mim mesma que, se ele me deixasse, eu teria facilidade em encontrar outro parceiro". Surpreendido? Não esteja: 31% das mulheres entrevistadas afirmam já ter tido sexo ocasional só para provocar ciúmes, 53% admitem ter seduzido o namorado de uma amiga por uma questão de competição e 84% optaram por ter relações sexuais sem vontade, apenas para evitar discussões com o parceiro.
  "O estereótipo tende a ser que as mulheres fazem sexo por amor e os homens fazem-no por prazer", explicam Meston e Buss. "Na realidade, as motivações sexuais das mulheres são muito mais complexas". Esqueçam os eternos amores bem ao género do filme "Casablanca" e compreendam a mensagem do livro: "As mulheres nem sempre são emocionais. Muito menos puras, ou transparentes, no que diz respeito ao sexo".
  Divididas entre as motivações emocionais, físicas ou materiais, o livro revela razões para todos gostos: as altruístas ("dormi com ele porque sentia pena"), as terapêuticas ("tirava-me as dores de cabeça"), as espirituais ("queria tentar chegar mais próximo de deus"), as ambiciosas ("precisava de um aumento no ordenado"). Há mulheres que têm relações para se sentirem mais poderosas ou sensuais. Outras pretendem apenas impressionar as amigas com a quantidade de parceiros que conseguem ter. A maioria fala de romance... embora sejam comuns os relatos de compensação emocional através do sexo.
  Cada mulher é uma mulher
  Pelo consultório de Vânia Beliz, psicóloga especializada na sexualidade feminina, já passaram inúmeras mulheres de todas as idades e percursos emocionais. Contudo, não tem dúvidas: nas mulheres portuguesas, as motivações emocionais são as mais comuns para partilharem a cama com alguém. "Por cá as mulheres procuram cada vez mais ter uma vida sexual satisfatória. Mas mais do que o prazer, procuram a intimidade no sexo, tentando aumentar assim a proximidade com o companheiro".
  Vânia Beliz lembra ainda que "as mulheres foram reprimidas durante anos a poder desejar o sexo apenas pelo prazer", o que faz com que "não seja de estranhar que muitas não o dissociem do amor, ao contrário dos homens". Mas como "cada mulher é uma mulher", a sexóloga deixa claro: "As nossas motivações também dependem sempre do tipo de relacionamento que estabelecemos".
  Talvez por isso não seja de estranhar que ao perguntarmos a sete mulheres portuguesas, dos 17 aos 63 anos, como definiriam o que procuram no sexo numa única palavra, as respostas tenham sido díspares: arrebatamento, partilha, gozo, avatar, amor, entrega, comunhão.
  Sexo à portuguesa
  Antónia Pires tem 54 anos e está "casada com o homem da sua vida" há mais de 30. "Amor" foi a palavra eleita para descrever o que procura no sexo. "Sempre foi e continua a ser. A qualidade mantém-se, a quantidade é que não. Nesta idade existe ainda atracção, falta muitas vezes é a disposição", explica a mãe de dois filhos adultos, que garante: "Nunca fui capaz de fazer nada sem gostar da pessoa. Acho que nesse aspecto as miúdas mais novas são diferentes, ligam poucos aos sentimentos".
  Rita Martins, 17 anos, riposta: "Ainda não aconteceu, mas quando o fizer quero que seja feito com sentimento e não apenas porque já todas as minhas amigas fizeram". Ainda virgem, assume numa única palavra a sua visão do sexo: "entrega". Bem diferente, é a visão de Helena Benard, 27 anos, que escolhe o termo "avatar" para definir o que quer nesta fase da sua vida íntima. Sem papas na língua, assume que procura "sexo de qualidade, prazer físico e emocional, criatividade, algo transcendente... que me faça sair de mim mesma".
  Vânia Beliz não se surpreende com a diferença das respostas. "Com o avançar da idade e das etapas da vida procuramos no sexo coisas diferentes. Independentemente disso, é muito comum as mulheres usarem o sexo como compensação emocional".
  É o caso de Carla Gouveia que, aos 37 anos, quer acima de tudo "partilha". "Antes procurava a minha validação sexual, perder certas inibições até chegar ao patamar do sexo descomplexado. Com a idade a avançar, experiências com outros homens e alguns problemas conjugais pelo meio, neste actual companheiro procuro compensação afectiva no sexo, um momento grande de partilha a todos os níveis".
  Já Joana Soares, 26 anos, quer "arrebatamento". Embora com uma postura calma e romântica no seu dia-a-dia, assume que no que toca ao sexo quer "conseguir perder o controlo", sentir-se "possuída, extravasar sem pensar". Com uma perspectiva de recém-mamã, Diana Cunha, 33 anos, confessa que sente mudanças grandes na sua vida sexual e que nesta fase o sexo "é importante, mas deixou de ser essencial". Por isso mesmo, escolhe a palavra "comunhão".
  Mas engane-se quem acha que a idade torna as pessoas mais fechadas em relação ao sexo. Graça Guedes, 63 anos, define-o com apenas quatro letras: "gozo". Há cinco anos reencontrou um namorado dos tempos de adolescência e a antiga química fez-se logo sentir. Na mesma altura, descobriu que tinha cancro do endométrio. A operação e a radioterapia a que foi submetida fizeram-na querer pôr de lado a sexualidade... mas a chama da paixão, em conjunto com a compreensão e apoio do companheiro, falou mais alto. Casou-se pela segunda vez e, com a ajuda do parceiro, redescobriu como voltar a ter prazer. "Divertimo-nos muito juntos. Ele tem toda a paciência do mundo", conta Graça, que encontra nesta fase da vida a mais-valia do tempo. "Estamos reformados, portanto temos todo o tempo do mundo um para o outro. Não há crianças, nem horários, muito menos para o sexo". Praticamente recuperada do cancro, não tem dúvidas: "O amor foi parte da cura".
  Mulher, a "criatura complexa"
  As motivações femininas no amor, relacionamentos e sexo têm sido alvo de inúmeras teorias ao longo da história, sem que nenhum tenha conseguido chegar a uma conclusão suprema. Cindy Meston e David Buss são os primeiros a dizer que "elas são criaturas complicadas e complexas", sendo impossível ter uma noção da realidade mundial com apenas cerca de mil entrevistadas. Há dez anos mal se falava no tema, agora já se disserta sobre as nuances da sexualidade feminina, assumindo que não há um padrão definido, realçam os investigadores.
  Embora o estudo conclua que a atracção física e o desejo continuam a ser as duas razões mais comuns que levam as mulheres a tirarem a roupa, o livro "Porque é que as Mulheres têm Sexo? A Psicologia do Sexo Contada por elas", deixa claro: "Sim, as mulheres têm sexo para conseguirem o que querem e nem sempre são tímidas ou sentimentais. Embora o possam fazer em busca de uma ligação emocional, matar o desejo é, cada vez mais, um motivo tão válido e comum como qualquer outro".

«Artigo publicado na Revista Única da edição do Expresso de 6 de Março de 2010.»
«Kandimba»