terça-feira, 30 de março de 2010

Como um miúdo de 11 anos sobreviveu a uma queda de avião.



Norman Ollestad foi o único sobrevivente de um acidente de aviação. Desceu a encosta gelada da montanha e escreveu um livro


Na manhã de 19 de Fevereiro de 1979, um pequeno Cessna partiu do aeroporto de Santa Mónica, na Califórnia, em direcção à estância de esqui de Big Bear. A bordo seguia Norman Ollestad, o pai e a namorada e o piloto. A curta viagem foi abruptamente interrompida quando o avião se preparava para cruzar o pico de Ontário, a mais de 2500 metros de altitude, numa zona inacessível. "Era a primeira vez que andava numa avioneta, tanto quanto me lembro", conta Norman, o único sobrevivente do acidente. Tinha 11 anos.
Trinta e um anos depois, Ollestad aterra em Lisboa. Não tem tempo a perder: está na Europa a promover o seu livro e segue para a Áustria dentro de dois dias, onde vai aproveitar para uma descida de montanha numa prancha de snowboard. Mete rapidamente uma maçã à boca e sobe ao 18º andar do hotel para se perder numa vista que lhe parece familiar. "A ponte é parecida com a de São Francisco", diz-nos antes de se recostar num dos sofás da sala vip. Tem 42 anos, pele queimada, e um olhar ágil sob o cabelo descolorado pelas muitas horas de surf nas praias da Califórnia.
"Inconscientemente, acho que foi preciso tornar-me pai para poder escrever esta história. Dei por mim a falar para o meu filho, tal como o meu pai falava comigo", começa por justificar. "Apanhado pela Tempestade" não é apenas o relato apaixonado de um sobrevivente improvável. É a história de um pai viciado em adrenalina e da relação inspiradora com o seu filho, desde cedo habituado a viver experiências intensas na montanha e no mar. No limite, costuma dizer Ollestad, "foi isso que me salvou a vida".

Montanha abaixo...

Recuemos no tempo. Norman tinha apenas 11 anos quando se viu sozinho num perigoso desfiladeiro gelado, no meio de um intenso nevoeiro. O avião onde seguia tinha acabado de colidir com o pico de uma montanha, nos arredores de Los Angeles. De nada serviram os avisos via rádio para que o piloto não se aventurasse naquela zona. "Era um homem pouco experiente, um instrutor de voo".
Pouco depois de cair, Norman perdeu a noção do espaço e do posicionamento do avião. "Pensei que estava a viver um sonho. Não conseguia ver o meu pai nem a namorada, apenas o piloto, visivelmente ferido. Voltei a adormecer", conta. Quando acordou, começou a chamar pelo pai, mas a única resposta que obteve foi da namorada. "Está morto", gritava-lhe ela, em desespero. Encontrou-o mais tarde, prostrado no banco, com a cabeça enterrada nos joelhos.
Apesar do choque, o miúdo de 11 anos teve lucidez para fazer alguns cálculos. Restavam-lhe poucas horas de luz e, se não saísse dali, "o mais certo era morrer congelado". "Sandra estava bastante ferida, tinha um braço partido e mal se conseguia mexer. Ainda assim, disse-lhe que tínhamos de descobrir uma saída."
Norman desceu sozinho uma encosta vertical praticamente gelada, sem cordas nem qualquer tipo de equipamento de segurança. Apenas guiado pelas memórias e ensinamentos do pai, com quem partilhara diversas vezes os perigos da montanha. Vestia uma sweatshirt, ténis e umas calças. "Não tinha chapéu nem luvas, fiquei com os dedos todos queimados pela neve. Mas quase não sentia frio, tal era a adrenalina", recorda. Sandra, de 30 anos, resistiu pouco tempo à descida: "Escorregou e desapareceu no nevoeiro".
Passaram nove horas até que Ollestad conseguisse avistar uma pequena povoação com cerca de 30 casas. Exausto, esfomeado e desidratado, foi ajudado por um adolescente que surgira entre a vegetação, num caminho corta-fogo. "Vivia num rancho perto, foi ele que me ajudou a chegar." Mais de 30 anos depois, quando apresentava o livro numa sessão em Washington, um homem aproximou-se dele, após a leitura de um trecho. "Olhou-me nas mãos e disse: nada mal, hein? Era o miúdo que me tinha ajudado."
Depois do acidente, Norman foi criado pela mãe. Estudou escrita criativa e cinema. A sua história foi comprada pela Warner Brothers e vai ser adaptada para cinema. Em 2006, escalou até ao local do acidente. E trouxe o que restava do avião.
 - André Rito -
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